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25 de Junho de 2018
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    Educação / Investimento na primeira infância reduz intolerância e criminalidade/Educação / Primeiros anos definem desvios de conduta/Educação / Projetos pedagógicos reforçam conceitos e valo

    Para especialistas, Brasil precisa destinar mais recursos para garantir o direito constitucional de proteção integral das crianças; ensino superior recebe 12 vezes mais do que a pré-escola

    É nos primeiros anos de vida que se aprende a lidar com os conflitos e sentimentos. Por isso, as experiências vividas até os 6 anos de idade são cruciais para a formação do caráter e da absorção de valores. Se, por um lado, uma criança que cresce num ambiente desfavorável, com uma família desestruturada, em condições de miséria e convivendo com violência tem muito mais chances de se tornar um adulto problemático, quem se desenvolve em um ambiente amoroso, no qual são ensinados valores como amizade, respeito e compaixão, provavelmente levará esses conceitos para a vida toda. É por isso que especialistas em educação defendem a necessidade de um maior investimento na chamada primeira infância. Dar oportunidades para que a criança vivencie experiências positivas nessa fase da vida é, para alguns especialistas, a melhor arma contra mazelas como violência e intolerância. Meios de estimular essas experimentações e políticas públicas que valorizem a primeira infância serão discutidos durante a 1ª Semana de Valorização da Primeira Infância e Cultura da Paz, realizada desde ontem até o fim desta semana em Brasília. O evento, que irá reunir especialistas do Brasil, de Portugal e do Uruguai, tem como objetivo tratar a importância do desenvolvimento do indivíduo no período de zero a 6 anos para a construção da cidadania e de relações sociais não-violentas. Investimento > No entendimento dos especialistas, o Brasil ainda não investe o quanto deveria na educação infantil. O país tem hoje cerca de 22 milhões de crianças com idade entre zero e 6 anos. Dessas, 14 milhões não têm acesso a creche. Embora a proteção integral seja um direito previsto na Constituição , cerca de 25% dos municípios brasileiros não têm nenhuma creche. "Mesmo os que têm, não têm vagas suficientes. No Rio de Janeiro os pais precisam retirar senhas. E não é para esperar a vaga, é para entrar num sorteio. É uma coisa que não tem cabimento. Trata-se de um direito constitucional", lamenta o médico psicoterapeuta e membro fundador do Conselho Científico do Instituto Zero a Seis, João Augusto Figueiró. A existência de vagas, entretanto, não garante a assistência adequada. Em São Paulo, uma das cidades mais desenvolvidas do Brasil, existem mais de duas mil creches, mas menos de 200 possuem o certificado da Vigilância Sanitária de higiene e segurança. "A situação é ruim e os efeitos serão sentidos no futuro", alerta o especialista. De acordo com uma pesquisa da Unesco divulgada em 2000, o gasto por aluno brasileiro em pré-escolas públicas é de US$ 820 por ano. Em países desenvolvidos, como a Alemanha por exemplo, esse mesmo gasto é de US$ 5.277. Segundo o mesmo estudo, o gasto por aluno no ensino superior público brasileiro é 12 vezes maior do que o gasto com pré-escola. "No Brasil os professores mais qualificados estão no ensino superior, enquanto que deveria ser o contrário. As crianças são nossa maior preciosidade. É na educação infantil que se estrutura todo o restante do processo da escola", diz a diretora pedagógica e especialista em educação infantil Esther Cristina Pereira. Não é preciso muito esforço para se convencer de que o investimento vale a pena. Pesquisas feitas pela organização não-governamental Figth Crime: Invest in Kids (Combata o Crime: Invista em Crianças) mostraram que, para cada dólar investido em atendimento de qualidade na infância, cerca de US$ 7 são poupados em gastos no sistema policial e prisional. A ONG tem também um estudo feito com adultos que sofreram abusos na infância. A estimativa é de que 3,1 mil de 77.860 crianças abusadas ou negligenciadas se tornaram criminosos, que não teriam tomado esse caminho se tivessem tido um bom acompanhamento durante os primeiros anos de vida.

    Educação> / > Primeiros anos definem desvios de conduta>

    A explicação para os desvios de conduta está na neurociência. Ao nascer, um ser humano tem cerca de 100 bilhões de neurônios. A todo instante, experiências e vivências contribuem para que esse número se multiplique rapidamente. Nos primeiros anos de vida, a velocidade do surgimento de novas conexões chega a 5 mil células nervosas por segundo. Até os 6 anos, algumas partes específicas do cérebro relacionadas às emoções, aos sentimentos e ao controle dos impulsos vão sendo desenvolvidas. No entanto, a forma como essas novas conexões se estabelecem depende do ambiente em que a criança está inserida e dos estímulos que recebe. "O comportamento é resultado de processos mentais orgânicos. Existem regiões no cérebro que regulam reações e atitudes e que se desenvolvem nos primeiros anos de vida" , diz Figueiró. "A parte pré-frontal, por exemplo, responsável pelo controle dos impulsos, geralmente é menos desenvolvida em pessoas com comportamento violento", exemplifica. Outras áreas, como o sistema límbico, relacionado com as emoções, e o lobo temporal, que regula sentimentos como empatia e compaixão, também estão intimamente ligadas ao comportamento e se desenvolvem até os 6 anos.Segundo Figueiró, com um ano de meio de vida uma criança já possui sentimentos morais como empatia, igualdade e justiça. Até os 2 anos, 80% do cérebro já está formado. Valores, idéias e sentimentos que se fixam na infância são os que ficarão para a vida toda. "Todo esse aprendizado se dá por meio de modelos, de exemplos a que a criança tem acesso. Ela aprende muito mais pelo que sente e vê do que pelo que lhe é dito", observa. É por isso que crianças expostas a situações de risco tendem a se tornar adultos com desvios de conduta. "A organização do desenvolvimento moral se processa cedo na vida e é aqui que se previne a violência", resume o médico português João Carlos Gomes-Pedro, especialista em desenvolvimento infantil. (CV)

    Educação> / > Projetos pedagógicos reforçam conceitos e valores com a família>

    É por meio de brincadeiras e atividades educativas que as crianças compreendem conceitos, valores e atitudes de cidadania e respeito ao próximo. Na pré-escola Peixinho Dourado, de Curitiba, elas aprendem a adotar comportamentos e ações de companheirismo, solidariedade e respeito de forma lúdica e divertida. "Criamos o projeto do bolo dos sentimentos, em que cada criança fez um bolinho de areia e colocou uma plaquinha com o sentimento que escolheu. Isso serve de ponto de partida para que valores como família, amor e amizade sejam discutidos", explica a coordenadora pedagógica, Marianna Canova. Em outra iniciativa, os alunos acompanham a transformação de uma lagarta em borboleta. "Nessa atividade ensinamos a importância da paciência", comenta Marianna.Na rede pública, as crianças dos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI) também recebem orientações por meio de situações e atividades do diaadia da escola. "Todos os CMEIs seguem diretrizes curriculares baseadas no desenvolvimento da identidade e da autonomia, trabalhando habilidades como criatividade e afetividade", afirma a diretora do Departamento de Educação Infantil da prefeitura de Curitiba, Ida Regina Milléo. Árvore da Amizade > No CMEI Santos Andrade, no Campo Comprido, as crianças do maternal III participaram ao longo do ano da construção de um livro dos valores. "A cada dia uma criança levava o livro e a boneca Rafaela, que é usada para ensinar os comportamentos, para casa. As famílias faziam um momento de reflexão sobre o amor e escreviam sobre isso no livro, para que a professora lesse para as crianças no dia seguinte, durante as rodas de conversa", explica a diretora da escola, Marli Soltovski. O projeto deu tão certo que a escola decidiu levar adiante, criando a Árvore da Amizade. "Nela, cada criança colocou uma folhinha em que fala sobre o que é a amizade para ela", diz a professora Sônia Coelho. Os resultados dos projetos são sentidos nas atitudes dos alunos. "Muitos pais comentam que eles levam esse aprendizado para casa, que mudam o comportamento", diz. (CV)>

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